Agrião de Clara Pinto Correia

AGRIÃO
Clara Pinto Correia
Relógio d'Água, Novembro 1984
Romance
104 páginas
Sinopse
Novelas diversas dentro de uma História (ou diversas histórias numa só novela), a cavalo nos tempos do nosso tempo e nos múltiplos espaços que nos definem o lugar. O retrato de uma família pobre que vai migrando a conta gotas para a  grande cidade de Lisboa à procura de uma vida melhor mas que acaba a tentar sobreviver nas novas e emergentes periferias dos anos 70.

«Contara sempre aos cachopinhos, que sorviam as suas histórias fantásticas como goles de vinho doce aquecido com mel e gema de ovo nas vésperas frias de Natal, o caso daquele filho cruel que esfaqueara a mãe para lhe retirar da camisa os magros tostões que ele ganhara com tanto esforço enquanto ele estava na taberna, e depois , enlouquecido, desatara a correr com o coração dela na mão. - Depois tropeçou numa fraga, ficou de borco na terra, e o coração da mãe foi a rebolar por ali fora. Sabeis o que disse então o coração? Cresciam de ansiedade os olhos atentos, redondos, dos meninos. - Disse assim, muito baixinho, que já não lhe cresciam forças para mais: "Magoaste-te, meu filho?" Raivosamente dedicada aos filhos, por eles generosa como só o são os animais, nesse amor de tudo dar que nunca conhece descanso, respondia agora pela aparente indiferença à humilhação que o mais velho lhe infligira.»
«E só ela sabia que não eram as pernas trémulas que ali a retinham era, mas nunca diria a ninguém, a irreprimível rejeição de todo aquele mundo que nunca fora o seu e também não queria saber dela para nada. Entendes tu isto, Agrião? (...) Não fosse eu ter-te aqui comigo e já se tinha quebrado há muito tempo este fio frágil que ainda me ata ao mundo com um nó que muito devagarinho, se vai desfazendo.» 

Agrião é o nome do cão da matriarca da família, Violante, encontrado junto aos pés de agriões no Pintado (Tomar) pouco antes da sua vinda para Lisboa para onde veio a custo morar com os filhos. Um companheiro que vai tornar a vida desta mulher desenraizada mais suportável e dar-lhe alguma alegria. Mas este não é um daqueles livros sobre animais especiais que são uma fonte de transformação dos seus donos que muito apreendem com eles, Agrião vai apenas dar o mote e pontuar o relato da saga familiar e da sua protectora entre o Pintado e Lisboa, o campo e a cidade.
Narciso, o primogénito da família chega a Lisboa à procura da bênção de uma terra prometida, da riqueza ansiada e depois dele segue-se quase toda a família. Chega a Santa Apolónia vinte e oito anos antes do nascimento do cão Agrião, o nosso elo de ligação, mas a novela vai começar a ser-nos contada a partir de 1976 com constantes revisitações ao passado que traçam o caminho de cada uma das personagens numa alternância constante entre o tempo presente e o passado e as suas diferentes histórias. 
Margarida, a feiosa vem para Lisboa após a morte de Dália, a sua irmã mais nova e uma das maiores alegrias que a cidade lhe proporcionou foi aprender a ler. Violeta, a virgem que se guardou para um homem de Lisboa e que acabar por viver esse seu auspicioso projecto de vida em Camarate. Depois surgem os netos e a bisneta Maria Carla  (Pachacha) de feitio aguerrido e contestatário.

Mas a cidade nunca foi para todos eles o elo dourado que esperavam nem lhes concretizou as quimeras desejadas e foram arrastados para viver as suas ilusões na periferia. Todas as personagens são enquadradas  e situadas num local concreto e real que vai contribuir para a sua história (curiosamente alguns dos locais da minha infância e adolescência, raramente referidos em livros), uns vivem numa casa construída pelos sogros em Camarate, outros passam por um quarto na Ameixoeira e acabam num prédio social nos Olivais Sul enquanto a geração seguinte já vai mais fora da cidade conseguindo adquirir o "Chalet Silva" em S. Domingos de Rana. Estes espaços vão defini-los e definir o seu futuro ao mesmo tempo que nos dão a conhecer um pouco da nova Lisboa que ia emergindo no início dos anos 70.

Em comum todos as mulheres da família sofrem grandes abnegações, desilusões e padecimentos com um sorriso escondido, mas como dizia a mãe "quem se sujeita a amar sujeita-se a padecer", revelando o comportamento sexista ainda muito presente no estilo de vida português. Através de uma observação bem-humorada, o livro acaba por fazer um retrato do nosso país entre o campo e a cidade com maior incidência na década de 70, sempre cheio de referências. 

Um romance com uma escrita límpida, muito real e cru a lembrar Os Filhos da Mãe  de Rita Ferro no seu realismo urbano e no retrato familiar que é feito embora de diferentes características.

Clara Pinto Correia é uma escritora, ficcionista, cronista para além de bióloga e investigadora cientifica. Este foi o seu romance de estreia, publicado em 1984 com 24 anos e que recebe no ano seguinte o prémio da revista Mulheres (1978-1989). O seu primeiro sucesso editorial dá-se com "Adeus Princesa" (1985) transposto para o cinema em 1982 por Jorge Paixão da Costa. Destacam-se na sua obra, "E se tivesse a amabilidade de me dizer porquê?" (1986) em co-autoria com Ma´rio de Carvalho, "Ponto Pé de Flor" (1990) e "Mais que Perfeito" (1997). Também escreveu vários livros infantis assim como de divulgação científica relacionados com área da fertilidade. 
O ano passado regressou à escrita com "Todos os Caminhos", o primeiro da trilogia A Tirania da Distância.
Todos os livros

** (Razoável)

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